Dica de Leitura: A máquina de fazer espanhóis

por | 11 de fevereiro de 2026 | Destaque, Dica de Leitura

Por Luciana de Oliveira

Título: A máquina de fazer espanhóis
Autor: Valter Hugo Mãe Editora: Biblioteca Azul

Imagine ter quase toda a sua vida ao lado de uma única pessoa — amor, rotina, memórias, família — e, de repente, perder tudo quase de uma vez. Assim começa a jornada de António Jorge da Silva, um velho barbeiro português de 84 anos cuja vida se desfaz com a morte da esposa, Laura, com quem viveu por quase cinco décadas.

Contra sua vontade, António é levado pela filha para o Feliz Idade, um asilo incrustado entre um cemitério e um jardim onde crianças brincam — metáfora perfeita da transição entre a vida e a ausência dela. Lá, a existência que parecia cristalizada em rotina e amor transforma-se num espaço de espera, reflexões e encontros inesperados.

O livro — narrado em primeira pessoa — é um banho de humanidade sem filtros: não é um romance sobre velhice confortável, mas sobre a verdade nua e crua da última estação da vida. A escrita de Valter Hugo Mãe, sem maiúsculas e quase sem pontuação, mergulha na mente de António com intimidade quase desconfortável: ele não tem filtros; ele é velho, está zangado, sente medo, dor e, sobretudo, uma saudade devastadora.

No lar, António encontra outros personagens que parecem fragmentos de uma vida inteira — como o enigmático Esteves “sem metafísica”, que diz ter inspirado o “Tabacaria” de Fernando Pessoa — e em suas histórias ecoam ecos da juventude, do salazarismo, da culpa, da amizade e, por fim, de uma forma de amor que ultrapassa a própria morte.

Mas não se engane: isto não é uma narrativa melancólica sem esperança. É profundamente comovente e, em seus fragmentos, contém humor, ironia, pequenas vitórias em dias ordinários e a certeza de que — mesmo no fim da vida — ainda podemos nos surpreender com gente, histórias e uma palavra amiga.

Este romance é uma conversa franca com a vida que envelhece, com o amor que persiste e com a memória que, mesmo fragmentada, tece a identidade de um homem inteiro. Uma leitura que vai te fazer pensar em seus próprios afetos, nos vazios que carregamos e no modo como a vida, afinal, se faz até o fim.

Prepare um bom chá, ou uma taça de vinho e boa leitura!

Luciana Oliveira é turismóloga de formação, atuando há 30 anos com desenvolvimento de comunidades e moderação de processos participativos. Leitora e Livreira por paixão. Instrutora de Yoga por gosto e Ativista da Longevidade por vivência e admiração.