O brasileiro é penalizado pelo ego, pelo orgulho e pela vaidade

por | 19 de agosto de 2026 | Destaque, Vida e Carreira

Por Carlos Air Severo Machado

Existe uma forma silenciosa de pobreza que não aparece nas contas bancárias, nos extratos ou nas declarações de imposto de renda: aquela provocada pelo orgulho.

Vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, ensinou as pessoas a escolherem uma profissão não necessariamente pelo seu potencial de geração de renda, mas pelo status que ela representa. O problema é que o mercado não paga salários maiores porque uma profissão parece mais elegante. Ele remunera, entre outros fatores, a escassez, a demanda, a competência e o valor que determinado profissional consegue entregar.

E é justamente aí que existe uma contradição que merece nossa atenção.

Tendo vivido e observado realidades diferentes, especialmente entre Brasil e Estados Unidos, percebo uma diferença cultural bastante interessante na maneira como o trabalho é encarado.

Nos Estados Unidos, é relativamente comum encontrar alguém dirigindo uma grande caminhonete, puxando um trailer carregado de ferramentas, máquinas e equipamentos, vestindo uma roupa de trabalho suja depois de um dia inteiro colocando a mão na massa.

E aquele profissional pode não ser um simples trabalhador. Pode ser o proprietário de uma empresa altamente lucrativa.

Um eletricista, encanador, técnico de climatização, profissional de manutenção, jardineiro, construtor, especialista em limpeza, mecânico ou prestador de serviços especializados pode construir um patrimônio muito maior do que alguém que passa oito horas por dia atrás de uma mesa, em um escritório climatizado.

E ninguém necessariamente enxerga isso como motivo de vergonha. Ao contrário: existe respeito por quem trabalha, produz, resolve problemas e constrói um negócio.

No Brasil, ainda carregamos, em determinados ambientes, uma percepção diferente. Existe uma associação equivocada entre sucesso e aparência.

O profissional bem-sucedido precisa estar de terno, em um escritório bonito, diante de um computador, ocupando um cargo com um nome sofisticado.

O trabalho operacional, por outro lado, muitas vezes é tratado como algo inferior. E talvez esse seja um dos erros mais caros que uma pessoa pode cometer na vida. O mercado não remunera o nosso orgulho.

Faça um teste simples. Procure um bom eletricista. Procure um encanador realmente competente. Tente contratar um pedreiro com boas referências. Encontre um profissional especializado em manutenção, jardinagem, instalação, pintura ou algum outro serviço técnico. Você poderá descobrir algo curioso.

O problema muitas vezes não será encontrar alguém disposto a trabalhar.

Será encontrar alguém bom, disponível e confiável. E quando encontrar, provavelmente descobrirá que aquele profissional não está disposto a trabalhar por qualquer preço.

Por quê? Porque existe demanda. E onde existe demanda combinada com escassez de mão de obra qualificada, o preço tende a subir. É a velha e conhecida lógica do mercado.

Enquanto isso, existe uma quantidade enorme de profissionais com formação superior disputando poucas vagas, aceitando salários relativamente baixos e permanecendo durante anos em posições que pouco contribuem para a construção de patrimônio.

Não há nada de errado em trabalhar em um escritório. Não há nada de errado em buscar uma graduação. Não há nada de errado em desejar uma carreira intelectual. O problema começa quando passamos a acreditar que determinados trabalhos diminuem o nosso valor como seres humanos. O trabalho não deveria ser utilizado como instrumento de vaidade. Deveria ser utilizado como instrumento de construção.

Diploma não é sinônimo de riqueza. Durante décadas, vendemos aos nossos filhos uma equação bastante simples:

Estude → faça uma faculdade → consiga um bom emprego → tenha uma vida confortável.

Essa fórmula funcionou para muitas pessoas. Mas o mundo mudou. Hoje, um diploma pode ser importante, mas não garante prosperidade. Da mesma maneira, não ter diploma não significa estar condenado a ganhar pouco.

O que realmente importa é a combinação entre conhecimento, competência, capacidade de resolver problemas, demanda de mercado, capacidade de negociação e gestão financeira. Um profissional técnico pode ganhar muito dinheiro. Mas existe uma diferença fundamental entre ganhar dinheiro e construir riqueza.

Se um eletricista ganha bem, mas gasta tudo o que recebe, continuará financeiramente vulnerável.

Por outro lado, se ele administra bem o negócio, controla custos, separa as finanças pessoais das empresariais, reinveste parte do lucro, constrói uma marca, contrata funcionários e transforma sua atividade em uma empresa, a história pode mudar completamente.

É nesse momento que o empreendedorismo aparece. Começar colocando a mão na massa. Existe uma romantização perigosa do empreendedorismo. Muitas pessoas querem começar diretamente como empresários. Querem escritório, funcionários, logotipo, site, carro da empresa, redes sociais e cartão de visitas.

Mas esquecem de uma coisa: antes de administrar uma operação, é preciso aprender a executar aquilo que será vendido.

Começar pequeno não é fracasso. Pode ser estratégia. Imagine alguém que começa sozinho realizando determinado serviço. Aprende a atender clientes. Aprende a precificar. Aprende a negociar. Aprende a controlar custos. Aprende a lidar com reclamações. Aprende a administrar o próprio tempo. Aprende quais serviços têm maior margem. Aprende quais clientes são bons e quais não são.

Depois, começa a contratar. Treina outra pessoa. Cria processos. Padroniza o serviço. E, gradualmente, deixa de ser apenas aquele que executa para se tornar aquele que coordena, administra e expande.

É assim que muitos pequenos negócios deixam de depender exclusivamente das mãos do proprietário. O profissional passa da operação para a gestão. Da gestão para a estratégia. E da estratégia para a construção de patrimônio.

Há ainda outro elemento que não podemos ignorar: a inteligência artificial. A tecnologia já está transformando diversas atividades que, durante décadas, pareciam relativamente protegidas.

Funções administrativas, atendimento, produção de conteúdo, análise de dados, programação, suporte, pesquisa e inúmeras outras atividades estão sendo modificadas pela automação. Isso não significa que os computadores substituirão todos os seres humanos. Significa que algumas habilidades que antes eram escassas podem deixar de ser. E quando uma habilidade deixa de ser escassa, sua remuneração tende a sofrer pressão.

Por outro lado, existem atividades que dependem de presença física, habilidade manual, deslocamento, adaptação ao ambiente, responsabilidade técnica e interação direta com o mundo real.

Uma inteligência artificial pode escrever uma mensagem. Mas não pode, por si só, consertar o vazamento de uma residência.

Pode analisar uma fotografia de um problema elétrico. Mas não pode subir em uma escada, abrir um painel e executar fisicamente o serviço. Pode auxiliar um empreendedor a administrar sua empresa. Mas não substitui integralmente a execução de inúmeros serviços físicos.

Isso abre uma discussão importante sobre o futuro do trabalho. Talvez uma das grandes oportunidades das próximas décadas esteja justamente na combinação entre trabalho técnico, empreendedorismo e tecnologia.

O profissional que souber utilizar inteligência artificial para administrar melhor sua empresa, captar clientes, organizar sua agenda, controlar suas finanças, criar campanhas e melhorar seus processos poderá se tornar ainda mais produtivo.

A tecnologia não precisa ser sua concorrente. Pode ser sua alavanca. O problema não é querer status. É colocar o status acima da estratégia. Precisamos ensinar nossos jovens a fazer uma pergunta diferente.

Em vez de: “O que as pessoas vão pensar se eu trabalhar com isso?”

Talvez seja melhor perguntar: “Existe demanda para isso? Quanto o mercado paga? Posso me tornar excelente nisso? Posso transformar essa atividade em um negócio? E consigo construir patrimônio a partir dela?”

Essa mudança de pergunta pode mudar uma vida.

Porque o mercado não sabe, e não deveria saber, se você tem orgulho de determinada profissão. Ele simplesmente responde àquilo que você entrega. Não importa se você trabalha em um escritório sofisticado ou chega em uma residência com uma caixa de ferramentas.

Se você resolve um problema importante, com qualidade, pontualidade e confiabilidade, existe valor econômico naquilo. E, se existe valor econômico, existe potencial para empreendedorismo.

O ego pode custar muito caro. Talvez uma das maiores barreiras para o crescimento financeiro não esteja na falta de oportunidades. Esteja na dificuldade de enxergá-las.

O ego diz: “Eu não vou fazer isso.”

O orgulho diz: “Isso não é trabalho para mim.”

A vaidade diz: “Imagine o que os outros vão pensar.”

Enquanto isso, o empreendedor pragmático pergunta: “Existe mercado? Quanto as pessoas estão dispostas a pagar? Quanto custa entregar? Qual é a margem?  Posso fazer melhor? Posso escalar?”

Essa diferença de mentalidade pode separar duas trajetórias completamente diferentes. Uma pessoa pode passar anos procurando uma oportunidade que pareça socialmente prestigiosa. Outra pode identificar um problema aparentemente simples, resolver esse problema melhor do que os concorrentes e construir uma empresa milionária ao redor dele.

A primeira protege o próprio ego. A segunda constrói patrimônio. O verdadeiro luxo pode estar em não precisar provar nada. Talvez seja hora de redefinirmos o conceito de sucesso.

Sucesso não deveria ser necessariamente o carro que você dirige, o relógio que usa, o escritório onde trabalha ou o cargo que aparece no seu cartão de visitas.

Sucesso pode ser ter liberdade. Ter patrimônio. Ter tempo. Poder escolher com quem trabalhar. Poder dizer não. Não depender exclusivamente de um salário. Ter uma empresa que funciona sem a sua presença constante. E, principalmente, não precisar impressionar ninguém para sentir que venceu. Existe uma ironia nisso tudo. Enquanto algumas pessoas gastam dinheiro tentando parecer ricas, outras estão trabalhando silenciosamente para se tornarem ricas.

Enquanto umas buscam reconhecimento, outras buscam clientes. Enquanto umas procuram status, outras procuram soluções.

Enquanto umas perguntam: “O que vão pensar de mim?”

Outras perguntam: “Quanto isso pode gerar?”

Talvez uma das maiores revoluções financeiras que uma pessoa possa fazer na própria vida seja abandonar a necessidade de parecer bem-sucedida e começar a se preocupar em ser financeiramente bem-sucedida. O mercado não paga nosso ego. Não remunera nossa vaidade. Não deposita dinheiro na nossa conta porque temos orgulho de determinada profissão.

O mercado remunera valor. E talvez seja justamente por isso que, para muita gente, o caminho para uma vida financeiramente melhor comece com uma decisão aparentemente simples: parar de trabalhar para impressionar os outros e começar a trabalhar para construir a própria liberdade.

 

Carlos Air é escritor, empresário, colunista e filantropo. Autor do best-seller “Rico Pobre – A Diferença Não é o Dinheiro”, também escreveu obras como “Empreender – Não é Sobre Quem Tem Mais Talento, é Sobre Quem Tem Mais Fome” e “Para Conquistar o Sim, Elimine o Não – O Game da Barganha”. É colunista nas áreas de finanças, empreendedorismo e desenvolvimento pessoal, colaborando com importantes instituições e veículos de comunicação no Brasil. Seu trabalho como escritor tem como propósito maior transformar conhecimento em impacto social, destinando seus esforços para ajudar crianças em tratamento hospitalar e idosos.